Friday, August 16, 2013

Galileu Galilei

“Eu, Galileu, filho do falecido Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade, intimado pessoalmente à presença deste tribunal e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais Inquisidores-Gerais contra a gravidade herética em toda a comunidade cristã, tendo diante dos olhos e tocando com as mãos os Santos Evangelhos, juro que sempre acreditei, que acredito, e, mercê de Deus, acreditarei no futuro, em tudo quanto é defendido, pregado e ensinado pela Santa Igreja Católica e Apostólica. Mas, considerando que (... ) escrevi e imprimi um livro no qual discuto a nova doutrina (o heliocentrismo) já condenada e aduzo argumentos de grande força em seu favor, sem apresentar nenhuma solução para eles, fui, pelo Santo Oficio, acusado de veementemente suspeito de heresia, isto é, de haver sustentado e acreditado que o Sol está no centro do mundo e imóvel, e que a Terra não está no centro, mas se move; desejando eliminar do espírito de Vossas Eminências e de todos os cristãos fiéis essa veemente suspeita concebida mui justamente contra mim, com sinceridade e fé verdadeira, abjuro, amaldiçôo e detesto os citados erros e heresias, e em geral qualquer outro erro, heresia e seita contrários à Santa Igreja, e juro que no futuro nunca mais direi nem afirmarei, verbalmente nem por escrito, nada que proporcione motivo para tal suspeita a meu respeito."
Era o dia 22 de junho de 1633. Numa sala do convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva, em Roma, encerrava-se um dos episódios mais controvertidos da história: o julgamento de Galileu Galilei pela Santa Inquisição, sua condenação e subseqüente renúncia à crença de que a Terra gira em torno do Sol. Além da retratação, o Tribunal do Santo Oficio impôs a Galileu a pena de prisão domiciliar perpétua e a repetição, semanal, por três anos, dos sete salmos penitenciais.
Lido o veredicto e cumprida a cerimônia de abjuração pública (ao término da qual, segundo contam alguns, Galileu teria murmurado ironicamente: "eppur si muove " - "e, no entanto, ela se move"), o sábio recolheu-se à residência do grão-duque da Toscana, seu velho amigo, onde começou a cumprir a sentença. Pouco depois, alojou-se por algum tempo no palácio do arcebispo Piccolomini, em Siena, mudando-se finalmente para Florença, onde passaria seus últimos anos de vida.
Este período final foi bastante penoso para o cientista, pois, em 1638, a cegueira total o atingiu. Em carta a um amigo, desabafava seu sofrimento: "Ai de mim! O vosso amigo e servo Galileu tem estado no último mês desesperadamente cego, de modo que este céu, esta Terra, este Universo, que eu, por maravilhosos descobrimentos e claras demonstrações, alarguei cem mil vezes além da crença dos sábios da antigüidade, se reduzem, daqui por diante, para mim, a um diminuto espaço preenchido pelas minhas próprias sensações corpóreas".
(Galileu no Tribunal da Santa Inquisição)
Rodeado de amigos e discípulos, Galileu morreria a 8 de janeiro de 1642. Seus companheiros quiseram erguer um monumento em sua homenagem, mas o papa Urbano VIII vetou a proposição, alegando que ela seria um mau exemplo para os fiéis, visto que o morto "dera origem ao maior escândalo de toda a cristandade".
Suas obras foram incluídas no Index dos livros proibidos pela Igreja, juntamente com as de Kepler e Copérnico. Tais publicações seriam liberadas somente em 1822, mas as idéias que defendiam divulgaram-se muito antes.
Galileu Galilei nasceu em Pisa, a 15 de fevereiro de 1564, filho de Vincenzo Galilei e Julia Ammanati di Pescia. O pai, membro empobrecido da pequena nobreza, era músico e mercador, homem de cultura respeitada e um espírito contestador das idéias vigentes. Entretanto, Vincenzo desejava uma sólida posição social para seu filho, e por isso induziu-o à carreira médica.
Assim, após completar seus primeiros estudos em Pisa e na escola dos jesuítas do mosteiro de Vallombrosa, perto de Florença, com apenas dezessete anos, Galileu ingressava na Universidade de Pisa como estudante de Medicina. Entretanto, já no segundo ano do curso - que jamais concluiu, por falta de interesse pela matéria - ele descobriu a Física e a Matemática, realizando sua primeira observação importante: a oscilação de um pêndulo apresenta uma freqüência constante, independentemente de sua amplitude (quando esta é muito pequena). Na mesma época, inventou o pulsillogium, espécie de relógio utilizada para medir a pulsação.
(Galileu observa a oscilação de um lampadário na catedral de Pisa)
O encontro de sua verdadeira vocação científica levou-o a abandonar a universidade, apesar do descontentamento do pai. Voltando para Florença, em 1585, dedicou-se por conta própria aos novos estudos, mantendo um contato permanente com os intelectuais da cidade que freqüentavam a casa paterna, o que enriqueceu bastante sua formação filosófica e literária.
Prosseguindo suas experiências, notadamente no campo da mecânica aplicada, Galileu inventou uma balança hidrostática, sobre a qual escreveu um tratado, que terminou por atrair a atenção do grão-duque da Toscana, Fernando de Medici. Istovaleu-lhe, em 1589, a nomeação para lente de Matemática da Universidade de Pisa. Três anos mais tarde, o cientista transferiu-se para Pádua, onde, ainda sob a proteção de Fernando de Medici, assumiu a Cátedra de Matemática.
Nesta cidade, Galileu viveu dezoito anos, e aí realizou a parte mais importante de sua obra: a formulação das leis do movimento dos corpos em queda livre e dos projéteis, e a defesa do sistema heliocêntrico do Universo. Em ambos os casos, ele investiu contra as doutrinas oficiais da época - que se baseavam nas concepções do filósofo grego Aristóteles -, atraindo, com isso, a ira dos doutores da Igreja.
Aristóteles viveu entre 384 e 322 a.C. Segundo ele, a Terra encontra-se imóvel no centro do Universo, rodeada por nove esferas concêntricas e transparentes. Nessas, a camada mais interna é formada pela Lua, seguida pelas esferas dos planetas Mercúrio e Vênus, e, depois, pela do Sol, Marte, Júpiter e Saturno. A oitava região corresponde às estrelas e a última ao Primeiro Motor - Deus - que imprime movimento a todo o sistema.
No mundo de Aristóteles, cada coisa tem seu lugar, onde deve permanecer. Quando, por qualquer razão, algo se desloca de sua posição "natural", tende a reassumi-la imediatamente, animando-se de um "movimento natural": uma pedra, se elevada do chão, nele recairá, pois esse é o seu lugar. E isso, no entanto, não se aplica apenas aos objetos inanimados. Os pássaros voam e os peixes nadam porque esta é a sua natureza. E, o que é mais importante, eles existem exatamente para voar e nadar.
Esses exemplos também ilustram uma das idéias fundamentais da doutrina de Aristóteles: a da existência de causas finais no Universo, que faz com que todas as coisas sempre atuem visando a atingir determinados objetivos.
Durante muito tempo, essa filosofia constituiu um entrave ao desenvolvimento científico, pois suas explicações limitavam-se a postular um fim apropriado para cada fenômeno, sem verificar como ele ocorria.
No início de 1543 foi publicado, em Nuremberg, um livro de autoria do cônego prussiano Nicolau Copérnico, intitulado De revolutionibus orbium coelestiumSuas primeiras vinte páginas continham uma síntese da tese revolucionária defendida pela obra: o Universo ocupa um espaço finito, limitado pela esfera das estrelas lixas, ao centro do qual encontra-se, imóvel, o Sol. Ao redor deste astro giram, sucessivamente, os planetas Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno, enquanto a Lua se move em torno da Terra. Para o autor, a aparente revolução diária do firmamento terrestre é uma conseqüência do movimento de rotação da Terra em torno de seu próprio eixo.
Assim, Copérnico retirou a Terra do centro do mundo, colocando em seu lugar o Sol. Essa idéia ousada, no entanto, apesar de contrariar frontalmente os cânones oficiais, não levantou imediatamente a ira da Igreja, pois o sistema heliocêntrico de Copérnico, além de pouco divulgado, explicava os movimentos celestes de forma pouco satisfatória.
De fato, Copérnico, seguindo a tradição, não conseguira se libertar da tirania do movimento circular; e, assim, também fora obrigado a introduzir rodas e mais rodas em seu Universo para que ele funcionasse. Além disso, o prefácio do Derevolutionibus orbium coelestium trazia a seguinte observação tranqüilizadora: "Por favor, não tomeis isto a sério. É apenas um gracejo, destinado exclusivamente a matemáticos e, na verdade, muito improvável".
A tempestade que se abateria sobre o sistema heliocêntrico, "o maior escândalo da cristandade", somente ocorreu três quartos de século mais tarde, com o processo de Galileu. Entretanto, o germe fora lançado, e, no decorrer desse período, oheliocentrismo foi ganhando um número cada vez maior de adeptos, entre os quais se destacava a figura de Johannes Kepler.
Kepler fora assistente do dinamarquês Tycho Brahe. Os dados observados por este, no decorrer de toda uma existência dedicada à astronomia, permitiram a Kepler concluir, juntamente com Copérnico, que o Sol, e não a Terra, é que se encontra no centro do Universo; e - o que é mais importante que as órbitas dos planetas são elipses e não circunferências. Com isso, não só eliminava a principal objeção astronômica à hipótese de Copérnico, mas golpeava de morte o dogma circular, arrastando consigo uma parte do já vacilante edifício da cosmologia aristotélica. Contudo, os cálculos puramente astronômicos de Kepler não foram o elemento decisivo para produzir a grande revolução que conduziria a uma imagem completamente nova do Universo.
Essa tarefa coube a Galileu Galilei. Ao contrário do astrônomo alemão, que sempre viveu em países protestantes, fora do alcance da Inquisição, o cientista italiano pagou caro a sua audácia.
Tudo começou em 1609, com uma viagem de Galileu a Veneza, onde ouviu falar de um aparelho, construido por um artesão holandês, que fazia os objetos parecerem maiores e mais próximos: o telescópio. De volta a Pádua, conseguiu adquirir um desses instrumentos, com o qual passou a investigar o céu.
(Telescópio de Galileu)
Em março de 1610, publicou um livro de apenas 24 páginas, intitulado Sidereus nuncius (Mensageiro das Estrelas), nele descrevendo algumas de suas observações com a luneta. Em primeiro lugar, verificara que "a superfície da Lua não é perfeitamente lisa, livre de desigualdades, nem exatamente esférica, como considera uma extensa escola de filósofos com respeito à Lua e aos demais corpos celestes; pelo contrário, está repleta de irregularidades, é desigual, cheia de cavidades e protuberâncias, tal qual a superfície da própria Terra, diversa por toda parte, com montanhas elevadas e vales profundos". O Mensageiro das Estrelas prosseguia narrando a descoberta de milhares de outras estrelas, além das observáveis a olho nu; e trazia no término uma revelação sensacional: "Fica a questão que se me afigura ser tida como a mais importante desta obra, isto é, a de eu revelar e publicar ao mundo o momento da descoberta e observação de quatro planetas nunca vistos, desde o começo do mundo até nossos dias". Galileu havia descoberto as quatro luas de Júpiter.
(Lua, desenhos de Galileu)
O livro contrastava vivamente com as obras de seus contemporâneos, que eram escritas em termos pomposos e repletas de palavreado vazio. O Mensageiro dasestrelas foi redigido num estilo direto, limitando-se a informar o indispensável. Além disso, ele atacava velhas crenças, e seu impacto sobre os meios acadêmicos foi imediato e fulminante: as montanhas e vales da Lua afirmavam a semelhança entre a matéria terrestre e a celeste; o insuspeitado número de estrelas, antes invisíveis, tornou absurda a noção de que elas haviam sido criadas para o deleite dos homens, uma vez que só podiam ser vistas com o auxílio de um aparelho especial; as luas de Júpiter, apesar de não provarem que Copémico tinha razão, abalavam a antiga idéia de que a Terra é o centro em tomo do qual tudo gira.
A reação dos colegas de Galileu ilustra a impertinência de suas descobertas: uns recusaram-se a utilizar a luneta, alegando falta de veracidade nas afirmações do cientista italiano; outros, mesmo constatando com seus próprios olhos a forma do relevo lunar e os satélites de Júpiter, explicavam essa visão como produto de algum fenômeno atmosférico, ou mesmo de uma impostura.
Mas Galileu tinha mais novidades a comunicar aos cientistas da época. Assim, em agosto de 1610, ele anunciou uma nova descoberta, que divulgou nos meios intelectuais: "Observai o planeta mais alto (Saturno) em forma trigêmea". Na realidade ele avistara os anéis desse astro, mas, como seu telescópio era pouco potente, julgou que Saturno possuísse dois satélites.
Um mês depois, ele voltou a sacudir seus contemporâneos ao proclamar a descoberta do planeta Vênus. Afirmou que Vênus apresenta fases, como a Lua, e que estas variam desde a foice até o disco total (e vice-versa). Para Galileu, tal fato vinha confirmar a tese de que Vênus e os demais planetas giram em torno do Sol.
As descobertas astronômicas de 1610 tornaram-no famoso, e, em 1611, ele foi designado matemático da corte do duque da Toscana, em Florença. Nessa cidade, viu-se envolvido, em 1613, em uma controvérsia sobre a prioridade da descoberta das manchas solares, que ele reclamava para si, mas cuja autoria também vinha sendo reivindicada por outro cientista, um influente padre jesuíta alemão, Christoph Scheiner. A disputa, que logo enveredou pelo terreno teológico, uniu toda a ordem dos jesuítas contra Galileu, que teve, então, seu primeiro contato com a Inquisição: esta, pela pessoa do cardeal Roberto Bellarmino, proibiu-o, semi-oficialmente, de divulgar as idéias de Copérnico, que defendera no decorrer da polêmica e em ocasiões posteriores. Era a primeira vez que a Igreja fazia alguma restrição aberta à teoria do heliocentrismo; mas, daí para a frente, a reação eclesiástica seria cada vez mais intensa.
Durante os sete anos seguintes, Galileu não publicou mais nada em seu próprio nome. No entanto, como o silêncio lhe era mais penoso do que o receio das represálias da Igreja, em 1623 ele acabou editando um novo livro: Il Saggiatore (O ExPerimentador). A obra continha uma exposição dos princípios que devem regular o raciocínio científico e o processo experimental, defendendo o ceticismo do pesquisador perante as afirmações aparentemente definitivas. Além disso, Galileu esboçava uma teoria que alcançou notável importância na história do Pensamento humano: há uma diferença, na natureza, entre as qualidades primárias (como posição, número, formato e movimento dos corpos) e as secundárias (como cores, cheiros e gostos). Estas últimas existiriam apenas na consciência do observador.
Mais nove anos se passaram, até que Galileu publicasse seus Diálogos sobre os Dois Grandes Sistemas do Mundo, que causariam sua condenação como "persona non grata" para a igreja. Escrito sob a forma de uma conversa entre três pessoas, o livro confrontava as cosmologias de Ptolomeu e Copérnico. Nessa obra, Galileu, com seu estilo claro e incisivo, faz Salviati, que simboliza ele próprio, destruir metodicamente os argumentos tradicionais expressos por Simplício.
Os Diálogos logo alcançaram grande notoriedade. Mas desta vez Galileu fora longe demais, e a pesada mão da Igreja abateu-se sobre ele, iniciando-se o famoso processo.
A prisão domiciliar não impediu Galileu de continuar escrevendo. No ocaso da vida retornou ao interesse da mocidade, a Mecânica. Nos tempos de Pádua, ele havia estudado os movimentos dos corpos, chegando a conclusões radicalmente opostas a Aristóteles. Este afirmava que todo movimento, para poder se manter, pressupõe a ação contínua e permanente de uma força; Galileu, no entanto, partiu de um ponto de vista diverso, concluindo, após várias observações, que os corpos sempre se mantêm tanto em movimento retilíneo e uniforme como em repouso, a menos que haja uma força ou forças para impedí-lo.
Nessas experiências, ele fazia uma pequena esfera de metal rolar, primeiramente por um plano inclinado, depois através de uma superfície horizontal, para subir, a seguir, por um segundo plano inclinado. Alterando o declive deste último, ele notou que a esfera quase sempre atingia a mesma altura, com pequenas variações causadas pelo atrito. Desta forma, inferiu que, em condições de ausência de atrito, se o segundo plano tivesse inclinação nula, ou seja, também fosse horizontal, a esfera rolaria indefinidamente. Nasceu, assim, o princípio da inércia, que Newton usaria depois na construção de sua teoria.
Na mesma época, Galileu estudou a queda dos corpos, concluindo, mais uma vez em oposição a Aristóteles, que os corpos leves, longe de caírem mais lentamente do que os pesados, como se afirmava, fazem-no com a mesma velocidade. Mostrou ainda como essa queda ocorre, ou seja, apresentando-a como uma relação de proporcionalidade entre o espaço percorrido e o tempo.
As idéias mecânicas de Galileu também foram publicadas sob forma de um diálogo, os Diálogos sobre as Duas Novas Ciências, outra obra-prima, marco inicial da mecânica moderna. Nela, reafirmava a importância do método experimental para a ciência, no qual, formulada uma hipótese, o cientista a evidencia pela realização de experimentos e, somente então, parte para as grandes elaborações teóricas.
Mas em suas especulações no campo da mecânica, a simples observação não era suficiente para se obter o princípio da inércia, por exemplo, que, de certa forma, constituiu a pedra básica da mecânica moderna. Ele não poderia repousar apenas na realização de um ou mais testes e, por isso, Galileu recorreu às "experiências em pensamento". Com efeito, qualquer tentativa de demonstrar experimentalmente o princípio da inércia estará, de antemão, condenada ao fracasso, pois ele ocorre literalmente apenas em condições ideais. No mundo real, o atrito sempre se faz sentir. A experiência em si serve apenas para constatar a validade do princípio; pois, com uma progressiva redução do atrito, a bola percorre um espaço maior.
Foi um processo semelhante que permitiu ao cientista contradizer a afirmação de Aristóteles de que o peso de um corpo influi em sua velocidade de queda. A legendária experiência da torre de Pisa, que lhe é atribuída, na realidade foi realizada pelo aristotélico Giorgio Coressio que, soltando algumas esferas de ferro do alto desse edifício, teria constatado uma queda mais rápida para os corpos mais pesados (o que não é surpreendente, considerando-se as condições em que o teste foi realizado).
A grande contribuição de Galileu, portanto, foi ter dado o devido peso ao papel da observação experimental na ciência. Para ele, a experiência constitui a principal etapa do trabalho científico. Mas é necessário ir mais além, buscando, pelo raciocínio, o caminho que permitirá a generalização das leis empíricas. E foi a aquisição dessa nova maneira de interpretar os fatos que permitiu o nascimento da ciência moderna. 


Colaboradores Alunos do curso de Pedagogia UEPG

Maria Isabel Moura NASCIMENTO
Data do Documento: 22/04/2004
Fonte: www.saladefisica.cjb.net
Data do Documento: 02/05/2004


Galileu Galilei
 (1564 - 1642)

Fonte: Unicamp


GRÉCIA, A PÉROLA DO MEDITERRÂNEO

1.3 O JULGAMENTO DE SÓCRATES 

              FOTO DO FILÓSOFO SÓCRATES ANTES DE TOMAR CICUTA

O JULGAMENTO DE SÓCRATES

     Sócrates foi, provavelmente, o maior filósofo de todos os tempos. Ele viveu em Atenas, na Grécia, por volta de 500 anos antes do nascimento de Jesus. Foi a mente mais iluminada do ocidente em sua época, enquanto no oriente, por volta da mesma época aparecia um tal de Buda, que causou uma revolução no modo de pensar e se relacionar com a vida. Durante os seus 70 anos de vida, Sócrates procurou ensinar, através da dialética (diálogos), as verdades espirituais eternas, questionando sempre as falsas tradições da cultura helenística.

      Acabou despertando ódio e inimizades entre os detentores do poder e da cultura, que o acusavam de estar corrompendo a juventude ateniense. Foi levado a julgamento e condenado à morte pela ingestão de cicuta, um poderoso veneno. O texto a seguir foi condensado do livro Apologia de Sócrates, escrita por Platão (seu principal discípulo).    

      Ele descreve o julgamento de Sócrates, apresentando a sua defesa e suas considerações finais, após a sentença de condenação.


A DEFESA 

   A acusação diz:

  "Sócrates comete crime, investigando indiscretamente as coisas terrenas e as celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando aos outros". Mas nada disso tem fundamento, pois não instruo e nem ganho dinheiro com isso. Talvez pudessem dizer de mim: "Enfim, Sócrates, o que é que você faz? De onde nasceram essas calúnias? Se suas ocupações não fossem tão diferentes das dos outros, não teria ganho tal fama e não teriam nascido acusações".

   Sócrates responde:

   Acontece que Xenofonte, uma vez indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo e perguntou-lhe se havia alguém mais sábio do que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio. Ao ouvir isso, pensei: "O que queria dizer o deus e qual é o sentido das suas palavras?

    Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco." E fiquei por muito tempo sem saber o verdadeiro sentido de suas palavras. Então resolvi investigar a significação do seguinte modo: Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio deles, o oráculo e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta:

    "Este é mais sábio que eu, enquanto você disse que sou eu o mais sábio". Examinando esse homem - não importa o nome, mas era um dos políticos - e falando com ele, parecia ser um verdadeiro sábio para muitos e, principalmente, para si mesmo. Procurei demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí veio o ódio dele e de muitos dos presentes aqui contra mim. Então, pus-me a considerar comigo mesmo, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber.

Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele nisso:  não acredito saber aquilo que não sei. Fui a muitos outros daqueles que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu que todos são a mesma coisa. Daí veio o ódio deste e de muitos outros. E então me aconteceu o seguinte: procurando segundo o critério do deus, pareceu-me que os que tinham mais reputação eram os mais desprovidos, e que os considerados ineptos eram homens mais capazes quanto à sabedoria.

   Também procurei os artífices e devo dizer que os achei instruídos em muitas e belas coisas. Eles, realmente, eram dotados de conhecimentos que eu não tinha e eram muito mais sábios do que eu. Contudo, eles tinham o mesmo defeito dos poetas: pelo fato de exercitar bem a própria arte, cada um pretendia ser sapientíssimo, também, nas outras coisas de maior importância e esse erro obscurecia o seu saber. Dessa investigação, cidadãos atenienses, tanto me originaram calúnias como também me foi atribuída a qualidade de sábio. E totalmente empenhado em tal investigação, não tenho tido tempo de fazer nada de apreciável, nem nos negócios públicos, nem nos privados, mas encontro-me em extrema pobreza, por causa do serviço do deus.

    Além disso, os jovens, seguindo-me espontaneamente, gostam de ouvir-me examinar os homens. Eles, muitas vezes, me imitam por sua própria conta e decidem também examinar os outros, encontrando grande quantidade daqueles que acreditam saber alguma coisa mas pouco ou nada sabem. Daí, aqueles que são examinados encolerizam-se e, por essa razão, dizem que há um tal Sócrates que corrompe os jovens. Saibam, quantos o queiram, que por esse motivo sou odiado; e que digo a verdade, e que tal é a calúnia contra mim e tais são as causas.

    Cidadãos de Atenas, creio que vocês não têm nenhum bem maior do que este meu serviço do deus. Por toda a parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente com o corpo e com as riquezas, como devem se preocupar com a alma, para que ela seja o melhor possível. Absolvendo-me ou não, não farei outra coisa, nem que tenha de morrer muitas vezes.

    Dessa forma, parece que o deus me designou à cidade com a tarefa de despertar, persuadir e repreender cada um de vocês, por toda a parte, durante todo o dia. É possível que vocês, irritados como aqueles que são despertados quando no melhor do sono, levianamente me condenem à morte, para dormirem o resto da vida.


                                     A CONDENAÇÃO

    

 A minha impassibilidade, cidadãos de Atenas, diante da minha condenação deriva, entre muitas razões, que eu contava com isso, e até me espanto do número de votos dos dois partidos.

    Por mim, não acreditava que a diferença fosse assim pequena. Os meus acusadores pedem, para mim, a pena de morte. Que pena ou multa mereço eu? O que convém a um pobre benemérito que tem necessidade de estar em paz para lhes poder exortar ao caminho reto? Para um homem assim conviria que fosse nutrido e mantido pelo Estado.

    Por não terem esperado um pouco mais, vocês irão obter a fama e a acusação de haverem sido os assassinos de um sábio, de Sócrates. Pois bem, se tivessem esperado um pouco de tempo, a coisa seria resolvida por si mesma: vejam vocês a minha idade. Talvez, senhores, o difícil não seja fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da maldade, que corre mais veloz que a morte.

   Eu, preguiçoso e velho, fui apanhado pela mais lenta:

   a morte. Já os meus acusadores, válidos e leves, foram apanhados pela mais veloz: a maldade. Assim, eu me vejo condenado à morte por vocês; vocês, condenados de verdade, criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentro da minha pena, vocês dentro da sua.

    E estamos longe de julgar retamente, quando pensamos que a morte é um mal. Porque morrer é uma destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja; ou, como se costuma dizer, a morte é uma mudança de existência e uma migração deste lugar para outro. Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte é como um presente, porquanto todo o tempo se resume em uma única noite. Se a morte, porém, é como uma passagem deste para outro lugar e se lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir maior do que este?

   Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim a conversação acolá seria maravilhosa. Isso constituiria indescritível felicidade. Vocês devem considerar esta única verdade:

   que não é possível haver algum mal para um homem de bem, nem durante sua vida, nem depois de morto. Por isso mesmo, o que aconteceu hoje a mim não é devido ao acaso, mas é a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser liberto das coisas deste mundo. Por essa razão não estou zangado com aqueles que votaram contra mim, nem contra meus acusadores. Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vocês para viverem. Mas quem vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus.

O Julgamento de Sócrates (Fédon)


   O julgamento de Sócrates foi relatado por seu discípulo, Platão, no livro Fédon, e apesar de ter sido realizado há mais de 2.400 anos, aborda, em sua essência e nos fatos que o rodeiam, temas e questionamentos que até hoje procuramos compreender.

    O ponto de partida para tentar compreender tal julgamento está na defesa das acusações que foi feita pelo próprio Sócrates. Uma vez que não havia pessoa melhor para demonstrar a veracidade dos fatos, se não aquele que os praticou/vivenciou. A partir desse ponto de partida, podemos entender a grandiosidade que esse julgamento tem não só para a história da Filosofia, como também para a história da humanidade. O saber, a missão e a mortePelo entendimento do texto, o Saber para Sócrates estava diretamente ligado à humildade – uma das virtudes que demonstra o grau do caráter humano – em reconhecer à limitação do conhecimento.

     Podemos ver isso quando Sócrates parte atrás de pessoas que - supostamente - sabiam mais que ele, e chega à conclusão de que, apesar de realmente saberem acerca daquilo que estão acostumados a lidar, não sabiam acerca daquilo que não dominavam e, assim, pensavam - erroneamente - que sabiam, não assumindo, desta maneira, a verdade. Ainda, o “Saber de Sócrates” (por assim dizer) estava na capacidade de assumir a verdade: saber que de nada se sabe. Uma vez que o conhecimento/sabedoria só é atingido através da verdade.

    De forma tranqüila e sem receios, Sócrates expõe sua Missão aos presentes no julgamento. Relata como o Oráculo de Delfos o qualificou como o mais sábio dentre os homens e como procedeu para buscar respostas para comprová-lo. Sócrates buscava a perfeição da alma, mas sabia que para atingi-la só mesmo através da verdade. Não que ele não acreditasse no Oráculo – manifestação divina na Terra –, mas não compreendia o motivo pelo qual o levou a dizer aquilo. Paralelo a esse questionamento, o filósofo começou sua busca por aqueles que tinham todo o estereótipo de um sábio: conhecimento a certa de todas as coisas.

   Para o filósofo foi mais fácil entender porque aqueles a quem procurou (políticos, poetas, artesãos) não serem os escolhidos do Oráculo: não possuíam a humildade em reconhecer que não sabiam acerca daquilo que não dominavam.Como supracitado, Sócrates buscava a perfeição. Perfeição essa que só era possível através da verdade. Para ele, não era possível chegar à perfeição através da política, pois a mesma não busca a verdade e, sim, a justiça.

  Com certeza, tal pensamento foi decisivo para condená-lo; visto que nem todos possuíam seu grau de conhecimento, não puderam compreender que a justiça dita por Sócrates não buscava a verdade e sim culpados e inocentes, mesmo que não utilizassem da mesma.A Morte anunciada (como condenação a seu julgamento) deveria despertar naquele homem o mais temível dos sentimentos e a mais insensata das manifestações, mas, surpreendentemente,

   Sócrates demonstra, mais uma vez, o grau de sua sabedoria. Supôs (até aqui ele mostrou que não sabia de tudo, apenas supôs) que havia dois caminhos para seguir: a morte instantânea ou o renascimento de sua alma (consciência). Ele estava tranqüilo por que sabia que, além de ter falado a verdade, não foi ela - nem si mesmo - quem o condenou, mas sim a ignorância daqueles que não admitiram que foram falhos em condená-lo. Dizer isso a todos seria o mesmo que repetir sua defesa na íntegra; portanto, desnecessário.

    Com certa margem de erro, é possível dizer que Sócrates sabia de sua morte quando, no decorrer do julgamento, observou que ali dentro a verdade não valia de muita coisa.A autonomia dos temas neste julgamento é observada quando o Saber de Sócrates provoca uma reação contrária ao que ele propunha, ou seja, “saber que nada sei” para aqueles que o julgavam foi mais uma prova de que ele se julgava superior demais para estar ali; sua Missão é encarada – de forma errada – como uma prova de que utiliza-se da retórica para escapar da condenação; e sua morte parece ser eminente, pois satisfazer a vontade do povo é o que conta numa democracia como Atenas, mas a vontade de poucos influenciou a maioria.


   Há uma correlação entre os temas, principalmente entre o Saber e a Missão. Pois o segundo é uma busca pelo primeiro e o primeiro é uma conseqüência que Sócrates tira do segundo.A Morte como condenação deixa um grande significado: o primeiro, por si só, que é seu exemplo de morrer para deixar vivo aquilo em que acreditava e conseqüentemente um recado aos sofistas de que deveriam não só se preocupar com a oratória, mas também com a verdade, pois a aplicação da primeira sem buscar a segunda não é filosofia.O que deixa mais intrigada a leitura desse texto foi o fato de que Atenas, sendo uma cidade "democrática", levou à morte seu filho mais ilustre por fazer justamente aquilo que a democracia mais defende: liberdade de expressão. Poder-se-ia, até mesmo, dizer que o único crime que Sócrates cometeu foi o de ter sido ateniense até o fim, literalmente. 

O JULGAMENTO DE JESUS - O maior erro judiciário da História

A g n u s D e i

O JULGAMENTO DE JESUS
O maior erro judiciário da História1
Autor: Ruy de Azevedo Sodré*
Fonte: "Revista dos Tribunais" nº 256 (Fev/1957)


Entronizamos hoje, em reunião festiva, a imagem de Jesus Cristo em nossa sala de sessões.
Era uma velha aspiração que há muito vínhamos acalentando, só agora tornada uma feliz realidade, com a construção da nossa "Casa", e por mercê de deliberação unânime deste Conselho Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil.
Essa coesão de sentimentos tem um significado muito expressivo, de vez que, ainda mesmo que alguns poucos não professem a fé católica, vêem, contudo, na imagem de Cristo crucificado, um símbolo de justiça.
Por mais paradoxal que pareça, a verdade é que, injustiçado pelos homens que o levaram à Cruz, Cristo se ofereceu a esse sacrifício máximo para salvação da humanidade.
Trata-se da morte do Juiz do mundo, que expirou na cruz para que pudesse ser feita, plenamente, justiça eterna aos homens que se haviam desviado do caminho que Deus lhes traçara.
Por outro lado parecerá, também, paradoxal ante o constante fluxo da vida jurídica, principalmente com as transformações contínuas do direito positivo, alimentado por fontes sociológicas e históricas, trazer para esta casa de juristas, onde se reúnem aqueles a quem a classe outorgou poderes para dirigi-la, como signo sagrado, a imagem de quem viveu há dois mil anos.
Ainda que Jesus não se apresente a alguns espíritos como o próprio Deus feito homem, mesmo assim devemos reconhecer que Ele encarna um alto ideal de justiça e de verdade que, durante o perpassar de vinte séculos, constituiu sempre - como hoje ainda constitui - uma esperança para a vida do Direito e um consolo para todos os que, como advogados ou partes, sofrem os efeitos de decisões injustas.
É que, para o humanismo cristão, o Direito não é como aparece ao historicismo, um produto fatal elaborado pela tradição popular e nem, como pretende o sociologismo, uma revolução em marcha batida, comandada pelos fatos.
A despeito da vida sinuosa do Direito, entre derrotas e vitórias, há algo que já ficou definitivamente de um passado que se encerrou, e que o futuro, por mais original que venha a ser, terá que reconhecer como "constante" da ciência jurídica: é esse alto ideal de Justiça e de Verdade que Jesus Cristo, em sua eternidade, como suspenso entre os horizontes do passado e do futuro, ilumina e iluminará para sempre, ao pregar a fraternidade humana e, conseqüentemente, postular esses débitos e créditos que quebraram os quadros do individualismo jurídico e conseguiram, por exemplo, amoldar-se às fórmulas do novum ius, no sentido de proteger os social e economicamente fracos.
Jesus Cristo, na verdade, não é jurista no sentido técnico da palavra e, até pode ser apresentado, com razão, como vítima de um julgamento iníquo que o condenou à morte no madeiro destinado aos facínoras da época.
Esse julgamento, em que ficou estereotipada a falibilidade da justiça humana, foi proferido em menos de 24 horas, no maior processo da História. E, maior processo da História porque, no dizer de Armando Dias de Azevedo2"foi ele que abriu uma nova era para a humanidade, porque foi ele que fez da data do nascimento desse réu condenado ao mais ignominioso dos suplícios, o marco divisório da História Universal".
Já a prisão de Cristo, no Jardim das Oliveira, suscita uma dúvida, que Daniel Rops3 assim a expressa: "Das duas autoridades legais, a judia e a romana, qual, aos olhos da História, carrega com o peso da morte de Cristo? Quem tem a responsabilidade, ou melhor, quem ordenou a prisão de Cristo? Foram os sumos pontífices e os fariseus quem a ordenaram mas, por outro lado, foram os soldados romanos que cumpriram o mandado de prisão".
Suspeito era o Tribunal que o iria julgar, pois dele recebeu Judas os trinta dinheiros com que atraiçoaria o seu Divino Mestre. Preso às 11 horas da noite, já à meia-noite Cristo fôra levado à presença de Anás. Este, velhaco e cruel, dominava o Sinédrio, Tribunal Supremo, onde cinco sacerdotes eram filhos seus e o presidente, seu genro Caifás. Se já pesava sobre aquele Tribunal uma comprovada suspeita, fato de Jesus ser levado à presença de Anás, que já não era sumo pontífice, mas apenas manipulador oculto das decisões do Sinédrio, evidencia o pré-julgamento daquele apressado e ignominioso processo.
Não obtendo - naquele interrogatório que faria inveja aos mais desalmados beleguins da nossa época - nenhuma prova, indício algum ou mesmo mera suposição de qualquer crime, Anás remeteu Jesus ao Sinédrio, que estava reunido sob a presidência de Caifás.
E o julgamento prosseguiu, às duas horas da madrugada de sexta-feira, sem figura nem forma de processo. Não houve acusação. As testemunhas arroladas eram falsas e mesmo assim, no dizer do evangelista Marcos, não eram concordes. Da boca de uma delas, surgiu a acusação: Jesus dissera -"Posso destruir o templo de Deus e reconstruí-lo em 3 dias".
Caifás, exultante, argüiu a Jesus sobre o que ouvira.
As palavras de Jesus, no entanto, não se referiam ao Templo de Jerusalém, mas ao seu próprio Corpo, metaforicamente considerado Templo Vivo de Deus.
Ante o inquietante silêncio de Jesus, Caifás procurou obter a sua confissão, inquirindo-o astuciosamente, com a evidente intenção de ilaquear a sua inocência: "Eu te conjuro, em nome do Deus Vivo, a que nos diga se és Cristo, o Filho do Deus Vivo". A esse repto Jesus proferiu uma advertência:"Se vo-lo disser, não me acreditareis. Também se vos fizer qualquer pergunta, não me respondereis, nem me dareis liberdade. Mas, depois disto, o Filho do Homem estará sentado à direita do Poder de Deus".
Replicaram, imediatamente, os julgadores, a uma voz: "Portanto, és o Filho de Deus!".
E então Jesus afirmou: "Vós o dizeis: Eu o sou".
E Caifás, triunfante, voltando-se para os seus comparsas, sentenciou, segundo relato de São Mateus: "Blasfemou! Para que precisamos, ainda, de testemunhas? Acabastes de ouvir a blasfêmia. Que vos parece?"
E os juízes do Sinédrio, acordes e uníssonos, proclamaram: "É réu de morte - reus est mortis".
Mas - e aqui surge mais outra nulidade - naquele nefando processo, além da acusação ser baseada num único depoimento, e é a de que o julgamento se estendera madrugada a dentro, ferindo preceito expresso da lei mosaica, segundo o qual só à luz alguém poderia ser julgado.
E, para sanar essa nulidade, entregaram Jesus à fúria da soldadesca para, ao romper do dia, ser confirmada a sentença já proclamada.
E assim se fez, violando, também, outro preceito legal, que ordenava que "nas causas pecuniárias pode-se terminar o processo no mesmo dia em que se começou; nas causas capitais pode-se pronunciar a absolvição no mesmo dia, mas a condenação deve - ao invés - deferir-se ao dia seguinte, na esperança que se encontre um argumento a favor do acusado".
O Tribunal Supremo dos judeus não tinha força executória para suas condenações à morte. Jerusalém estava sob o domínio de Roma; só o pontífice Pilatos, procurador dos romanos, poderia homologar tal condenação, ordenando que se a cumprisse.
Há mesmo quem sustente que, no Estado constitucional da Palestina, os judeus não só não tinham o direito de pronunciar uma condenação à morte, como o Sinédrio não poderia nem mesmo reunir-se para cuidar de um processo capital senão com a expressa autorização do Procurador dos romanos.
E a prova de que, no processo de Jesus, os judeus o julgaram sem a prévia licença do representante de Roma está no fato, segundo relata São João, de que, quando os judeus foram procurar Pilatos, este entendeu que eles vinham pedir aquela autorização e, então, lhes disse: "Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa lei".
E Jesus já estava julgado...
Mas foi Jesus levado à presença de Pilatos no Procuratorium, com a denúncia já decretada procedente pelo Sinédrio, mas a ele apresentada, não mais sob o aspecto religioso, mas sim como uma questão política a fim de angariar a ratificação de Pilatos: "Encontramos este homem subvertendo a nossa Nação, vedando pagar imposto a César e dizendo ser ele o Cristo-Rei".
Passa Pilatos a interrogar Jesus e desse interrogatório, relatado pelos evangelistas, encontramos a razão pela qual Jesus não se defendeu, nem tampouco teve a sua causa patrocinada por advogado.
As palavras de Jesus, em resposta ao tíbio procurador dos romanos, esclarecem a plenitude do sacrifício, a que livremente se impusera, para a salvação da humanidade. "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros certamente haveriam de pelejar para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui".
Jesus não convocou nenhum súdito ou ministro seu para pelejar a fim de que ele não fosse entregue aos judeus.
Não se defendeu porque contra ele não havia acusação alguma. Não se defendeu, nem solicitou a outros que o livrassem do processo porque ele não veio a este mundo "para se fazer servir, mas para servir e para dar a sua vida como resgate da multidão".
Nunca, na feliz expressão de um historiador, "na terra nenhum ato foi tão livre interiormente, produzido tão exclusivamente pela vontade pessoal, como o sacrifício de Jesus no Gólgota".
"Ninguém toma a minha vida; eu mesmo que a dou. Tenho o poder de dá-la e tenho o poder de retomá-la".
Jesus não confocou nenhum advogado para assisti-lo, mesmo porque Ele é que, como sublime advogado, naquele nefando processo, estava patrocinando a causa da humanidade em cuja defesa iria sacrificar a própria vida, perdoando a final, na hora da morte, aos que o imolavam impiedosamente.
Pilatos, após interrogar Jesus, e procurando julgar-se incompetente, ratione materiae [=em razão da matéria], volta-se para os príncipes dos sacerdotes e proclama: "Não encontro culpa alguma neste homem".
Mas estes, que haviam apresentado Jesus como criminoso, por atos contrários à religião e ao poder civil, um e outro não apurados por Pilatos, voltam-se, com maior veemência, então, acusando-o: "Ele subleva o povo, ensinando por toda a Judéia, a começar da Galiléia até aqui". Tal acusação deu a Pilatos outra oportunidade para, fugindo à responsabilidade, deixar de absolver Jesus. Julgou-se incompetente, já agora ratione loci [=em razão do local].
Se Jesus tinha o seu domicílio em Nazaré, na Galiléia, e se o seu crime era o de sublevar os habitantes daquele reino, a competência para julgá-lo não era sua, mas sim de Herodes Antipas. A este, como governador do reino da Galiléia e da Peréia, pertencia a jurisdição criminal.
O expediente denunciador de uma astuta habilidade política de Pilatos, desaforando a causa, e que o usura com um dúplice fim: não condenar Jesus porque sabia que ele era inocente; e lisonjear a Herodes, com quem não mantinha relações políticas. Tal expediente, se atingira a este último escopo, fracassara quanto ao primeiro.
O ato de Pilatos não pode ser interpretado como um escrúpulo de constitucionalidade mas, segundo a opinião de Giovanini Rsadi4, como um desprezível expediente de irresolução e de contemporização, se não, também de deferência e de adulação para com o Tetrarca, com quem o procurador irrequieto estava até então em relação de inimizade, talvez devido à morte dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara aos sacrifícios.
Há, ainda, os que, como Daniel Rops5, vêem no ato de Pilatos, além daquele dúplice fim, uma armadilha lançada contra Herodes, então presente em Jerusalém para as festas da Páscoa, transferindo-lhe a responsabilidade por um veredicto embaraçante.
E o ardil consistia no fato de que o julgamento que o Tetrarca proferisse seria nulo, pois não poderia ele julgar fora das fronteiras do seu Estado que, por certo, limitavam a sua competência jurisdicional.
Realmente, autores há que sustentam a existência de um impedimento de ordem legal pois, se conforme a acusação, Jesus respondia a um delito de sedição continuada, começada na Galiléia e terminada em Jerusalém, na Judéia, a regra do Direito Romano que Pilatos não desconhecia, impunha a competência do fôro pelo lugar em que fôra preso o réu cometendo delito. E se Jesus fôra preso às portas de Jerusalém, a competência era de Pilatos e não de Herodes.
Mas Herodes, "árbitro momentâneo de embaraçosa situação", sem levantar nenhum conflito de jurisdição, ao cabo de um frustrado interrogatório, astuciosamente devolve o incômodo réu ao procônsul sem culpa alguma, apenas vestido de uma túnica branca, a indicar tratar-se de um insensato e irresponsável.
Há, por seu turno, certos comentadores que interpretam o gesto de Herodes, devolvendo Jesus a Pilatos, vestido de uma túnica branca, não como sendo um réu insensato e irresponsável, mas com uma intencional ironia para com Pilatos. A túnica branca, análoga a que em Roma os tribunos militares se revestiam para o combate ou que os candidatos às eleições traziam obrigatoriamente, tinha esse sentido romano e não o de ridicularizar Jesus, como se fosse rei dos judeus. Assim, a uma "blague" de Pilatos, Herodes respondia com um gesto de sibilina ironia.
Qualquer, porém, que seja a interpretação que se pretenda dar ao gesto de Pilatos, deferindo a competência para julgar a Herodes e a solerte réplica deste, o que se verifica, sob o aspecto estritamente jurídico, é mais uma nulidade, de vez que ao Tetrarca não era lícito exercer a judicatura fora dos limites da sua jurisdição.
Herodes e Pilatos, um e outro se valiam pois, na mesma bitola - compara-os d. Duarte Leopoldo e Silva6 - "aferidos pelo mesmo padrão, em muito pouco se encontrariam desiguais, um quase nada desconforme na vileza e covardia. Um e outro, o judeu e o romano, este prepotente e ambicioso, humilhado e vingativo aquele, inimigos que antes eram, aqui se apertavam as mãos, no campo neutro da judicatura; aqui se reconciliam irmanando interesse políticos, que se não entrechoquem em luta desigual e ventura".
Segundo o relato de São Lucas, quis ainda Pilatos, ao prosseguir no julgamento, escapar de sua responsabilidade, ponderando aos acusadores: "Apresentastes-me este homem como agitador do povo e eis que, interrogando-o eu diante de vós, não achei nele culpa alguma daquilo de que o acusais. Nem tampouco Herodes, pois o remeti a ele e eis que nada ficou apurado que mereça morte. Por isso, soltá-lo-ei depois de o castigar".
E Jesus foi horrivelmente flagelado mercê de um ato de extrema covardia de quem, julgando-o inocente, subordina a concessão de sua liberdade a um castigo.
Mas a multidão, insuflada pelos pontífices, não se satisfez com o simples flagelo. Quer a condenação de Jesus.
E Pilatos, mais uma vez, se acovarda e lança mão de outro recurso. Como era costume, na Páscoa, pôr em liberdade um prisioneiro que o povo designasse, o Procurador dos romanos usa do direito de indulto. E ofereceu à plebe a escolha: ou o assassino Barrabás ou Jesus. E o indultado foi o bandido e Jesus foi condenado à crucifixão.
E Pilatos lavou as mãos significando, com isso, conforme um costume judeu, que se julgava inocente daquele assassínio. Mas, como adverte Rosadi, o oceano não seria suficiente para lavar as suas mãos maculadas de sangue, ou melhor, o próprio oceano ficaria ensangüentado.
Chauvin7, ao estudar o processo de Jesus, acentua como Pilatos violou as formalidades mais elementares do processo romano: não designou os acusadores, não concedeu ao acusado os prazos de vigor para escolher seus advogados; não indagou mesmo se o acusado tinha um defensor. Portanto, nem acareação em regra, nem discussão contraditória, nem acareação de testemunhas de acusação e de defesa, finalmente, nem a sentença foi pronunciada nos termos regulares.
E foi assim que no ano 17 do Império de Tibério César e 30 da nossa era, numa sexta-feira, na Santa Cidade de Jerusalém, Pôncio Pilatos condenou a Jesus de Nazaré a morrer em uma cruz entre dois ladrões, um à direita e outro à esquerda, Jesus no meio. No meio - comenta São Boaventura -"como o principal e o maior dos celerados".
E, na sua sentença8, o juiz político e astucioso, covarde e hipócrita, consigna que, segundo os grandes e notórios testemunhos do povo, Jesus é sedutor, é sedioso, é inimigo da lei, chama-se falsamente rei de Israel, e entrou no Templo seguido da multidão levando palmas na mão.
Nos dois processos a que Jesus foi submetido, o religioso perante o Sinédrio e o civil perante Pilatos, ambos iniciados e concluídos em menos de 24 horas, foram cometidas as maiores iniqüidades a par de, segundo profundas pesquisas levadas a efeito por renomados juristas9, terem ocorrido mais de 30 nulidades.
Cumpre, ainda, lembrar, como o fez Dias de Azevedo, em interessante estudo, a clássica sentença de Cícero: "crimen sine accusatore, sententia sine concilio, demnatio sine defensione".
E Jesus foi crucificado.
Resta-nos, porém, a sua imagem veneranda e venerável. Resta-nos o crucifixo que, segundo o nosso grande e saudoso arcebispo d. Duarte Leopoldo e Silva, "é uma dádiva preciosa do seu amor, já agora para sempre fixando no vértice das igrejas ou na sala nobre das famílias que não se pejam das suas ignomínias" e, também - acrescentamos nós - já agora na sala onde se reúnem aqueles a quem foram confiados altos interesses de uma nobre classe, como a dos advogados de São Paulo.
Na condenação de Jesus há quatro cruzes que significam quatro atitudes:
  1. Há a cruz do mau ladrão, que encerra a vida de erros e pecados, blasfemando.
  2. Há a do bom ladrão que, embora criminoso, suplica perdão de seus pecados e se converte no primeiro santo da Igreja.
  3. Há a de Simão, o cirineu, que foi obrigado a carregar a cruz de Cristo e suportou-a nos ombros com orgulhosa dignidade.
  4. A quarta cruz foi a que levou Jesus. Esta representa um ato de vontade plena. As outras três foram impostas.
Toca a cada um de nós a escolha da cruz.
"Na cruz morreu o homem um dia. É preciso aprender a morrer na cruz todos os dias".
Vivemos na sociedade num permanente drama jurídico. A lei objetiva prevenir esses dramas e encontrar-lhes soluções adequadas. Cada um de nós, continuamente, está criando relações jurídicas que se resolvem, a maioria das vezes, dentro de um clima normal, no desenrolar cotidiano da nossa vida. Mas, o drama jurídico está sempre envolvendo em suas malhas uma multidão de pessoas que, não respeitando os princípios da coexistência social, ferem direitos alheios.
Cabe ao advogado, dentro desse drama, um papel saliente e de difícil desempenho. Surgimos no cenário jurídico, em defesa daqueles que se julgam feridos em seus dirreitos e também, do outro lado, aparecemos defendendo os autores das lesões.
Para libertar o advogado da terrível tragédia que representa a perda de um pleito, recordamos o conselho de um jurista castelhano, segundo o qual os advogados devem sentir os pleitos como próprios, mas julgá-los como alheios uma vez proferida a sentença.
Mas, na verdade, de tal forma nos identificamos com os interesses do cliente que, difícil senão impossível será traçar um limite dentro do qual sintamos a causa como própria, para em seguida senti-la como unicamente do cliente. Só a justiça divina, simbolizada na imagem de Cristo, fortalecerá o nosso ânimo para, compreendendo a falibilidade humana, continuarmos a pleitear justiça nesse espinhoso múnus público de que estamos investidos.
E a lição do maior processo da História, para o maior advogado brasileiro, o grande Ruy10, é a de que o bom ladrão se salvou, mas não há salvação para o juiz covarde.
Assim, na imagem de Cristo que ora entronizamos nesta sala de nossas reuniões, acima da ratio scripta que é a lei, vejamos a grande força civilizadora, cristalizada no ideal cristão - essa mola mestra do progresso social que, com base na unidade Divina, ensina aos homens que, pela sua progênie comum, são verdadeiros irmãos.
"Há vinte séculos que o espetáculo desse Deus sofredor ajuda os homens a suportarem o sofrimento".
Que Jesus nos dê forças para carregarmos a nossa cruz, iluminando o caminho a percorrermos com as luzes da sua Verdade e da sua Justiça.


*Ruy de Azevedo Sodré: membro do Conselho Seccional da Ordem dos Advogados; do Instituto de Direito Social, do Instituto dos Advogados; da Sociedade Internacional de Direito Social; do Instituto de Direito do Trabalho do Rio Grande do Sul; do Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros; e da Sociedade Paulista de Medicina Social e do Trabalho.


Referências:


  1. Oração proferida em nome do Conselho Seccional, em 08.12.1956, por ocasião da entronização da imagem de Cristo na sala de sessões.
  2. Armando Dias de Azevedo - "O maior processo da História": conferência pronunciada em 18.08.1954, no Instituto dos Advogados do Rio Grande do Sul.
  3. Daniel Rops - "Jesus en son temps - la Passion".
  4. Giovanini Rosadi - "Il processo de Gesú".
  5. Daniel Rops - op. cit.
  6. d. Duarte Leopoldo e Silva - "Sermões da Paixão".
  7. Chauvin - "Le procés de Jesus-Christ".
  8. Sentença de Jesus Cristo proferida por Pôncio Pilatos. [...]
  9. Dias de Azevedo, na sua citada conferência, relata a revisão criminal do processo [...], publicada em 31.03.1931 pelo jornal "Estado do Rio Grande", de Porto Alegre-RS. [...]
  10. Ruy Barbosa - "O justo e a justiça política": artigo publicado na "A Imprensa", de 31.03.1899, e transcrito no Correio Paulistano, de 30.03.1956.